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A casa dos meus pais

Tem melhor lugar no mundo do que a casa dos nossos pais – onde recarregamos as baterias…?!Resultado de imagem para na casa dos pais

Porque naquela casa, sei que vai estar tudo bem

 

A casa dos meus pais, até outro dia, era a minha casa. Aliás, os anos passaram e parece que eu nunca me acostumo a chamar a casa dos meus pais de “casa dos meus pais” e não de “minha casa”. Talvez, no fundo, eu ainda pense que eu tenho duas casas.

Porque quando eu entro por aquela porta as coisas mudam. Eu coloco as armas no chão, tiro qualquer tipo de máscara do rosto e dispenso os escudos do dia a dia. Quando eu chego ali, me reconheço numa posição que hoje é rara, uma posição tranquila, de quem, por alguns raros instantes não terá que liderar porcaria nenhuma.

Houve um tempo em que eu não gostava de obedecer às ordens daquela casa. “Vai tomar banho agora, que já á o jantar sai”, “vai descansar um pouco”, “come uma salada antes”. Hoje, cada uma dessas frases soa com música nos meus ouvidos. Nada poderia ser melhor do que obedecer esses comandos.

Naquela casa a comida tem um sabor melhor. Não importa qual seja o prato, arroz e feijão ou um risoto complicado, é sempre melhor. E mesmo que você siga a mesa receita na sua casa, o de lá segue sendo melhor. E mesmo que você leve o resto numa marmita, na sua casa o sabor não será o mesmo. Não tem explicação. Ou tem: o sabor é o da casa, nem tanto o da comida.

No sofá da casa deles a paz é outra. É um tipo paz do passado que ainda consegue resistir ao presente. Parece que naquele sofá ninguém pode nos pegar: nem o e-mail do chefe, nem o prazo atrasado, nem os rolos de papel higiênico que faltam na sua casa. Naquele sofá você está seguro frente a todos os incômodos da vida adulta.

Parece que até os programas da televisão mudam. As coisas que você nunca mais assistiu, ali, voltam a passar. E você ri das piadas que já nem lembrava, gostando de coisas que você já tinha deixado cair pelo caminho por acidente. Parece que o passado se mantém seguro ali dentro.

Na casa dos meus pais, parece que volto finalmente a ser eu mesma. Uma eu mesma que é diferente da eu mesma que sou na minha casa. Uma eu mesma que usufrui do infinito luxo que é ser filho, ser aceito em cada pequeno defeito, em cada pequeno tropeço. Naquela casa, sei que tudo vai estar bem, mesmo quando tudo estiver errado. Porque, haja o que houver, eles estão lá.

 

Ruth Manus para Estadão

 

 

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