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Atletas da base do Flamengo morrem em incêndio no CT Ninho do Urubu

Sobre os atletas de base que morreram no incêndio no CT Ninho do Urubu:

“Creio que não há dor maior nesta vida do que perder um filho. Suponho que seja algo sem nome, sem paralelo, sem consolo.
Como se não bastasse ter o peito lentamente rasgado, acrescenta-se dose extra de padecimento com a informação de que se derramou o sangue do filho alheio – em Brumadinho, no Flamengo ou na Boate Kiss – por causa de descaso, falta de fiscalização, irresponsabilidade, descompromisso, ganância.
Segue sangrando o peito de todos nós, brasileiros, diante de tragédias perfeitamente evitáveis, vidas perdidas por um nada, sonhos destruídos quando mal se iniciavam.
Todos nós sofremos, sim, porque esse padecimento monstruoso contagia. Quando morre o filho de alguém, os outros pais se encolhem junto, imaginando se fosse o seu menino ou a sua garotinha (filhos jamais crescem) a partir tão cedo.
E choram.Choramos nós. E nos valemos de doces imagens – como asinhas iguais às de Mercúrio – nos pés dos meninos que se foram. Triste tentativa de estancar esse rio de lágrimas na nossa cara.”

Texto de Sonia Zaguetto

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Luiz Antônio Simas – O cravo não brigou com a rosa

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, pô!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas…

A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Está aberta a discussão…

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, [coisa de viado]. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como [coisa de viado]. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. [Bicha louca, diria o velho.]

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical. O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente.

A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra pqp e o centroavante pereba tomar no [c…] cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

 

 

Luiz Antonio Simas nasceu no dia de finados de 1967 e é Império Serrano. É mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio. É considerado um dos profissionais mais importantes do Rio de Janeiro em sua área de atuação. Publicou o livros como “O vidente míope”, que foi indicado pela Revista de História da Biblioteca Nacional como uma das publicações mais relevantes da área no ano de 2007. Desenvolve pesquisas sobre a cultura popular carioca, mais especificamente nos campos do futebol e da música popular. Foi o responsável pela pesquisa da exposição Todas as Copas, evento realizado no Brasil e nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo de 1994. Seu trabalho foi considerado pela FIFA como um dos mais completos levantamentos já realizados sobre a história dos mundiais de futebol. É atualmente consultor da área de carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

 

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Texto do Pasquale Cipro Neto, sobre a mudança de pronúncia de “Paraolimpíada” a “Paralimpíada”. Vale a pena ler.

Texto do Pasquale Cipro Neto, sobre a mudança de pronúncia de “Paraolimpíada” a “Paralimpíada”. Vale a pena ler.

Paralímpico? Haja bobagem e submissão!

O meu querido amigo, vizinho, filho e irmão Márcio Ribeiro me pergunta, com o seu falar italianado e com influência do linguajar da Casa Verde, bairro paulistano em que passou boa parte da vida: “Ma que história é essa de ‘paralímpico’? Emburreci, emburrecemos todos?”. E não foi só o Márcio. Vários leitores escreveram diretamente para o jornal ou para mim para pedir explicações.

Não, meu caro Márcio, não emburreceste. Nem tu nem os leitores que se manifestaram. E, é bom que se diga logo, a Folha não embarcou nessa canoa furadésima, furadissíssima.

Parece que o Comitê Paralímpico Brasileiro adotou a forma “paralímpico” para se aproximar da grafia do nome do comitê internacional (“paralympic”). Por sinal, o de Portugal também emprega essa aberração –o deles se chama “Comité Paralímpico de Portugal” (com acento agudo mesmo em “comité”).

É bom lembrar que o “par(a)-” da legítima forma portuguesa “paraolímpico” vem do grego, em que, de acordo com o “Houaiss”, tem o sentido de “junto; ao lado de; ao longo de; para além de”. Na nossa língua, ainda de acordo com o “Houaiss”, esse prefixo ocorre com o sentido de “proximidade” (“paratireoide”, “parágrafo”), de “oposição” (“paradoxo”), de “para além de” (“parapsicologia”), de “distúrbio” (“paraplegia”, “paralexia”) ou de “semelhança” (“parastêmone”). Os jogos são paraolímpicos porque são disputados à semelhança dos olímpicos.

Talvez seja desnecessário lembrar que esse “par(a)-” nada tem que ver com o “para” de “paraquedas” ou “para-raios”, que é do verbo “parar” (não esqueçamos que o infame “Des/Acordo Ortográfico” eliminou o acento agudo da forma verbal “para”).

Pois bem. A formação de “paraolímpico” é semelhante à de termos como “gastroenterologista”, “gastroenterite”, “hidroelétrico/a”, “socioeconômico”, das quais existem formas variantes, em que se suprime a vogal/fonema final do primeiro elemento (mas nunca a vogal/fonema inicial do segundo elemento): “gastrenterologia”, “gastrenterite”, “hidrelétrico/a”, “socieconômico”. O uso não registra preferência por um determinado tipo de processo: se tomarmos a dupla “hidroelétrico/hidrelétrico”, por exemplo, veremos que a mais usada sem dúvida é a segunda; se tomarmos “socioeconômico/socieconômico”, veremos que a vitória é da primeira.

O fato é que em português poderíamos perfeitamente ter também a forma “parolímpico”, mas nunca “paralímpico”, que, pelo jeito, não passa de macaquice, explicitação do invencível complexo de vira-lata (como dizia o grande Nélson Rodrigues). Pelo que sei, em inglês… Bem, dane-se o inglês. Danem-se os Estados Unidos, a Inglaterra e a língua inglesa.

Alta fonte de uma das nossas mais importantes emissoras de rádio me disse que o Comitê Paralímpico Brasileiro fez pressão para que a emissora adotasse a bobagem, digo, a forma americanoide, anglicoide ou seja lá o que for. A farsa é tão grande que, em algumas emissoras de rádio e de TV, os repórteres (que seguem ordens superiores) se esforçam para pronunciar a aberração, mas os atletas paraolímpicos logo se encarregam de pôr as coisas nos devidos lugares, já que, quando entrevistados, dão de ombros para a bobagem recém-pronunciada pelo entrevistador e dizem “paraolímpico”, “paraolimpíada/s”.

Eu gostaria também de trocar duas palavras sobre “brasuca/brazuca” e sobre o barulho causado pelo “porque” da presidente Dilma, mas o espaço acabou. Trato disso na semana que vem.

É isso.

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O Particípio Duplo

É constrangedor ouvir uma pessoa falar errado a própria língua…aprende aí, né moçada!!

O Particípio Duplo

particípio acumula as características de verbo com as de adjetivo e, na forma, se distingue pelas desinências -ado para a 1ª conjugação e -ido para a 2ª e a 3ª. O particípio permite a formação dos tempos compostos que exprimem o resultado do processo verbal:

Dora tem provado nos palcos que se pode reescrever o destino das crianças de rua.
O canário vem sendo negociado por duzentos reais.
Quando soubemos da previsão de mau tempo, já havíamos planejado o acampamento. Aquele sofá já está vendido.

Existem verbos, em português, que possuem dois particípios: um regular – com as terminações -ado e -ido – e outro chamado irregular, porque se forma de modo contraído, sem tais desinências, como soltofindosalvoseco etc. O particípio regular é usado com os auxiliares ter e haver, ou seja, na voz ativa:

Dizem que a polícia tem prendido alguns traficantes adolescentes.
Ele já havia soltado o cachorro quando o vizinho entrou pelo portão.
Parece que o correio não tem entregado as cartas pontualmente.

O particípio irregular exprime um estado – é usado na voz passiva, em especial com os auxiliares serestarficar, e neste caso flexiona no feminino e no plural:

O traficante só será preso depois de muita busca.
Os cachorros estão presos desde que morderam o carteiro.
A cinta ficou presa na porta alguns instantes; logo foi solta.
Mesmo os malotes têm sido entregues com atraso.

Para sua consulta, listamos alguns verbos com duplo particípio, separados por conjugação:

Infinitivo

Particípio Regular

Particípio Irregular

aceitar

(tem) aceitado

(foi, está) aceito

dispersar

dispersado

disperso

entregar

entregado

entregue

enxugar

enxugado

enxuto

expressar

expressado

expresso

expulsar

expulsado

expulso

findar

findado

findo

ganhar

ganhado

ganho

isentar

isentado

isento

limpar

limpado

limpo

matar

matado

morto

murchar

murchado

murcho

pagar

pagado

pago

salvar

salvado

salvo

secar

secado

seco

segurar

segurado

seguro

soltar

soltado

solto

vagar

vagado

vago

acender

acendido

aceso

benzer

benzido

bento

eleger

elegido

eleito

incorrer

incorrido

incurso

morrer

morrido

morto

prender

prendido

preso

suspender

suspendido

suspenso

expelir

expelido

expulso

exprimir

exprimido

expresso

extinguir

extinguido

extinto

imergir

imergido

imerso

imprimir

imprimido

impresso

inserir

inserido

inserto

submergir

submergido

submerso

fonte: Maria T. Q. Piacentini

via falabonito.wordpress.com

Minha dica:

Uma dica para verbos que têm particípio duplo:

  • Use os verbos SER, ESTAR  para o particípio irregular (aceito) – Ex:A sugestão foi aceita (particípio irregular)
  • Com os verbos TER, HAVER  use o particípio regular (aceitado) – Ex: Se eu tivesse aceitado a sugestão (particípio irregular)

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Um pouco de ternura…

Foto: "Mas é fato, ando com preguiça de interpretar o mundo, de entender as pessoas, de procurar os sete erros. Gostaria de ter todas as respostas na última pagina, de ter um manual de atitudes sensatas, de ter o pensamento voltado pra Meca. Queria que houvesse um serviço de telessoluções entregues a domicílio em menos de meia hora. "
http://a5.sphotos.ak.fbcdn.net/

Mas é fato, ando com preguiça de interpretar o mundo, de entender as pessoas, de procurar os sete erros. Gostaria de ter todas as respostas na última pagina, de ter um manual de atitudes sensatas, de ter o pensamento voltado pra Meca. Queria que houvesse um serviço de telessoluções entregues a domicílio em menos de meia hora. Cansei de filme de guerra, holocausto, tortura, exorcismo, crise existencial, seqüestros, erro médico, suicídio, trapaça. Ando abençoando a alienação, eu que tinha uma dificuldade crônica em concordar com os outros, me quero de volta, eu pago resgate.

(…)

“Um dia a gente acorda, os livros nos acordam, um anjo nos acorda, e somos avisados: não adianta mais olhar para trás. É ir em frente ou nada. ”

Martha Medeiros

 

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e-aulas USP

GRÁTIS: USP oferece 800 videoaulas em site e ainda disponibiliza conteúdo para download. É possível assistir tanto a aulas isoladas como a disciplinas inteiras. Portal e-Aulas foi inspirado em projetos semelhantes de universidades como Harvard, Princeton e MIT.
Veja como acessar em http://migre.me/aoz5b
via estadao
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Nossa (difícil) língua Portuguesa